Maria Rita Webster
Semana de Arte Têxtil


 
 
Discurso de abertura do Seminário
Maria Rita Webster

      Há exatos 21 anos, eu morava em São Paulo, e freqüentava o atelier de tecelagem de Renato Imbroisi. Naquela ocasião, todo este universo têxtil, de arte aplicada, era desconhecido para mim. Não porque em minha casa não tivessem estas atividades. A minha mãe sempre costurou e fez crochê, e faz até hoje com os seus 95 anos. Minha tia, com quem sempre muito convivi, fazia tricô com perfeição.

      O nosso estado, o Rio Grande do Sul, sempre foi muito pródigo neste aspecto, pois os que para aqui migraram e foram responsáveis pela formação de nosso povo, trouxeram consigo uma riqueza de atividades manuais, especialmente as ditas atividades femininas, como bordado, tricô, crochê...

      Já havia naquela altura, também, um movimento muito forte, do têxtil como arte, especialmente em tapeçaria. Havia ateliês, havia artistas que usavam o têxtil como suporte, participava de bienais de arte, e chegamos a ter trienais só de tapeceiros, salões, exposições de artistas brasileiros, aqui e com participação em eventos no exterior. Artistas sempre tivemos e bons, e com reconhecimento nacional e internacional.

      Mas não é disto que estou falando. Estou me referindo a este universo com outras possibilidades, com valorização destes fazeres, sem ser atividade de mãe e de avó para suprir as necessidades da casa ou por puro deleite. Estou falando da transmissão destes conhecimentos, sem ser transmissão oral, de vizinha para vizinha, ou de mãe para filha. Estou falando do aparecimento de cursos, escolas e ateliês. Estou falando deste fazer, mas com um outro olhar.

      Estou me referindo á arte têxtil como arte aplicada, como produto, capaz de gerar renda. Conto isto, porque este movimento coincidiu com a minha iniciação neste universo e posso dizer que ele tem 20 anos no Brasil. É recente.

      Passado alguns poucos anos, eu voltei para Porto Alegre, e em 1991, iniciei o atelier/escola, com cursos de tecelagem, com metodologia própria e publicada, ao qual depois foram se somando os cursos de patchwork, papel machê, tapeçaria de recorte, tingimento, fiação, bordado, feltro, costura, estamparia, criatividade, e muitos outros.

      No início, as pessoas que nos procuravam queriam aprender a técnica para lazer ou hobby, mas passado algum tempo, ao perfil de nossos usuários foram se somando outros, como os de arquitetos de interiores, estilistas, e profissionais de outras áreas que buscavam aplicar estas técnicas têxteis em suas atividades. Procuraram-nos também pessoas que viam nestas atividades têxteis possibilidades de um mercado com desenvolvimento de produtos e comercialização.

      A este novo momento, somou-se outra questão, o da globalização, e com o disse Ruth Cardoso: o contraponto é o desenvolvimento de identidades próprias, ligadas à experiência pessoal de cada um no espaço em que lhe cabe viver.” Começamos então, também a nos preocupar com a valorização da chamada Identidade Cultural.

      Naquela altura, comercialização e identidade cultural eram desafios novos. Não estou dizendo que não se faziam produtos artesanais para vender, não é isto. Esta nova roupagem, de valores agregados, da veracidade do produto com a cultura local que era nova.

      As questões eram muitas e não tínhamos nenhum lugar para que pudéssemos discuti-las. Não havia bagagem, teórica ou experimental e, como acredito nas ações com formação, na formação contínua, pois somos seres humanos sempre em permanente mutação e em permanentes buscas e descobertas, esta situação, que se formava foram determinantes para criarmos um fórum de debates: a Semana de Arte Têxtil.

      A Semana, desde sua primeira edição, teve como objetivo fazer uma reflexão sobre aspectos da arte têxtil no contexto social, cultural e artístico através de relato de ações, de pesquisas, de projetos e de experiências têxteis.

      Buscou pela participação, discutir, analisar, mostrar e resgatar questões têxteis, essenciais para o desenvolvimento da arte têxtil como ofício, arte aplicada ou expressão artística.

      Procurou estimular e divulgar o aprimoramento das técnicas têxteis e por fim não menos importante, proporcionar congraçamento de pessoas e de comunidades.

      As Semanas de Arte Têxtil iniciaram em 1996 e a primeira foi com o apoio do Centro Gaúcho de Tapeçaria Contemporânea. Elas foram formatadas em diversas ações para contemplar todos os interesses: seminários, que inicia com o conceito, depois os depoimentos e as práticas do tema proposto, e que contaram com a participação de universidades, ministérios públicos, entidades, pesquisadores, designers, artistas, técnicos têxteis, professores e artesãos.

      Os temas centrais foram:
  • 1996 - Tramando o futuro - em que abordamos mercado têxtil, sua produção, comercialização e qualidade.

  • 1999 - Resgatando o têxtil - em que focamos as técnicas têxteis

  • 2001 - Tecendo horizontes e a cultura popular

  • 2003 – Design e Cultura Popular; políticas do/e para o artesanato brasileiro - ocasião em que tivemos a direção do SEBRAE Nacional e da ARTESOL expondo suas políticas e ações.

  • 2005 - Identidade Cultural e comunidades produtivas

  • 2007 - Arte Têxtil, moderna e contemporânea

      Em paralelo, para potencializar a presença destas pessoas, tão importantes para nós, e que tinham o que acrescentar na prática, os convidamos para realizarem workshops. Tivemos Workshops sobre Cores, Texturas, Papel artesanal, cestaria, tapeçaria bordada, patchwork, bonecas de pano, feltro, criatividade, aplicação reversa, carimbos, estamparia

      Não poderíamos fazer um evento deste, sem priorizar o têxtil como arte. Tivemos, então, exposições de artistas consagrados, e em outras ocasiões, de artistas iniciantes, nas mais diversas técnicas. Também realizamos mostras de arte aplicada, mas sempre com a preocupação de realizar um painel representativo do que estava acontecendo neste universo. Somaram-se, entre mostras e exposições, 19 eventos.

      Realizamos simultaneamente, também, Mercado Têxtil, que tiveram como eixo norteador, tendências ou produtos têxteis realizados por comunidades, grupos, ateliês ou artesãs.

      E por último, ao longo destes anos, tivemos lançamentos de livros, desfiles e esquete teatral complementando estas atividades. Contabilizamos 13 anos de realização, 7 Semanas de Arte Têxtil, que contaram com 80 palestrantes, com 19 exposições, 21 workshops, 3 lançamentos de livros e um desfile.

      Enfim, tudo isto está parecendo um relatório, uma prestação de contas e na realidade é, pois esta é a última Semana de Arte Têxtil que realizamos. Acreditamos que elas já cumpriram seu objetivo, sua finalidade, de discussão, de divulgação, de crescimento, e hoje a arte têxtil aplicada já navega em mares tranqüilos.

      Já sabemos o que é valor agregado, já debatemos os mercados, e as técnicas que dominávamos se atualizaram e se adaptaram a novos tempos, sem perderem a sua essência, livros foram publicados, e estes seminários também já aconteceram.

      Mas mesmo assim sabemos que os temas não se esgotaram, e vamos voltar a discuti-los, mas com outro enfoque e formato.

      É um novo momento e surgem outras questões. Escolhemos duas para focar agora.

      A primeira, reportando a estes últimos 20 anos, que de um lado o fazer manual foi tratado com seriedade, com possibilidades de retratar e expressar identidades culturais, com possibilidades de mercado e do outro lado, os processos de globalização, a ausência de crescimento econômico e conseqüentemente educacional em países emergentes, a complexidades das sociedades e um conjunto de dificuldades de toda ordem, que alteraram os padrões sócio culturais dos indivíduos, e que se refletem na saúde financeira e na qualidade de vida da população. Este somatório fez com que também fosse percebido, por organizações não governamentais, instituições e entidades, o terceiro setor, que, entre outras ações, o fazer manual poderia ser usado como uma ferramenta para gerar renda auto-sustentável e desenvolver comunidades.

      E isto é uma via de duas mãos. Em uma via, prestando serviços sociais, logo, exigindo mais do que nunca que a cada ação tenha resultados efetivos, que ela se torne uma ação realmente transformadora das condições sociais atuais. Na outra via, para atingir esta meta, a exigência de aperfeiçoamento contínuo por parte dos profissionais envolvidos, buscando cada vez mais no 2º setor, no mundo empresarial, os instrumentos e as ferramentas de trabalho, mas não permitindo que estas prejudiquem o resgate social, principalmente, o potencial de cada ser humano, pois é ai que mora toda a força transformadora.

      Estes profissionais e comunidades que tem a clareza da necessidade de percorrer todas as etapas desde os processos de identificação de potencialidade, reorganização das organizações, capacitação de técnicas artesanais, desenvolvimento de produtos, sistematização e comercialização, até dos financiamentos, nos levam a outras questões desafiadoras e é destas que queremos tratar agora e nos próximos anos.

      O segundo desafio, que em consonância com o meu perfil e profissão inicial, o de bibliotecária, que acredita na importância de ações formativas, mas com registro, me levou, a retomar o projeto Memória Têxtil.

      A Memória Têxtil é fundamental para embasar tudo o que fazemos agora, além de resgatar a história têxtil brasileira. Este projeto é um site em que registraremos a trajetória e as obras de artistas que usaram o têxtil como suporte, sejam os brasileiros ou os pioneiros estrangeiros que iniciaram a arte têxtil no Brasil, as exposições, as bienais e trienais, os eventos, os festivais, os seminários, as associações e entidades de classe. As técnicas têxteis também estão contempladas. É um mapeamento do têxtil no Brasil.

      Este projeto que já está formatado, e que contou na curadoria com a ajuda decisiva de Sonia Moeller, e que não executamos até agora porque não conseguimos captar recursos para fazê-lo, pois memória e têxtil, no Brasil, ainda não são relevantes, mas que iremos novamente intensificar, pois nós sabemos que sem memória e sem registros, é não existir. E como diz a música, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

      Sei que nos uniremos para conseguirmos realizar a criação deste banco de dados e vamos começar alimentá-lo. O caminho começa com o primeiro passo. Mas não é trabalho para uma pessoa só. É trabalho para todos e já os convoco para esta nova empreitada.

      O ateliê continua com os seus cursos, seus workshops, seus bazares e as nossas viagens focadas nas manifestações culturais populares.

      Queria contar tudo isto para vocês, porque foi juntos que conseguimos todas estas realizações, assim como iremos construir o daqui para frente.

      Obrigado a todos que participaram, como palestrantes, como expositores, como mestres, como ouvintes, nos bastidores, apoiando. É mais que obrigado, digo Parabéns! Hoje relembrando toda a nossa caminhada, afirmo, ela é uma caminhada de indivíduos inquietos que estão permanentemente em busca e isto é viver.

      Mas, hoje tem uma razão muito especial é a 7ª. Semana de arte têxtil que tem como o apropriado tema central Bagagem Têxtil para encerrar um ciclo... Contaremos com a contribuição do Professor José Luis Amaral, que fará a conceituação do tema proposto, depois os depoimentos sobre projetos sociais, em que contamos com a presença da Sra. Eduarda Cipriano do FDC de Moçambique, e de Renato Imbroisi, Marta Cassim do SEBRAE. E finalmente o depoimento de artistas e educadores que usam o têxtil em suas atividades e que nos contarão suas trajetórias.

      Um bom seminário para todos.
 

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